Paulete acordou no cativeiro cheia de dores, amedrontada. Passou o tempo, o terror temporário clichê que todas sabem até relaxar de vez e olhar para o lado, perto dos outros reféns, que se comunicavam pela língua mundial e demosntravam-se em paz. Não, aquilo não era nada. Era apenas falsidade e necessidade de toque humano.

Paulete entendia tudo e começou a gerar uma repulsa estapafúrdia por aqueles que se fingiam de muito para nada representar. Tudo o que queria era ler, tentar descobrir uma maneira rápida de sair dali, não com saudade de casas, nem para se vingar dos seus algozes. Nada parecido. Paulete queria apenas não ter que chorar por aqueles outros reféns.

Denise chegou em casa e tomou um baque com as novas. perambulou como barata pelo apartamento e foi parar diante da pia, disposta a refletir entre o detergente e a bucha. As louças estavam limpas e ela resolveu tirá-las do escorredor e lavá-las novamente. Aquela gravidez que não passa. e as novas do bicicleteiro entregador de rosas, pai da cria que esperava.

Denise pensou que burra sou eu, estúpida... Como é que não tomei uma pílula do dia seguinte,para evitar todo esse tormento por meses. Mas Denise queria aquele tormento, que lhe tomava, lhe dava esperança, lhe convencia e confirmava que seu coração aquecia. E essa agora, quando é que essa cria nasce? Como? O feto cresce e cresce e pára de crescer, e reduz-se e agiganta-se a cada vez que recebe novas do bibicleteiro, que se esvai, que se confirmava como um andante, um passageiro das paisagens do mundo e se perde e se acha.

Denise, com medo de encomendar um chá de bebê, não sabe se ainda é tempo de abortar, mas sabe que mais dia menos dia ela reencontra o bicicleteiro e o próprio feto vai se mexer. Ah, que pode nascer ou abortar ali mesmo. E lá o bicicleteiro vai carregar a cria consigo, no meio das rosas que tão orgulhosamente ostenta.

Denise confabulou ao enxaguar a última panela limpa que relavava e evitou pensar no bicicleteiro, sem saber se ía ter o dissabor de ser mãe solteira, abandonada. Ao inferno as feministas que a culpa não é do pai, é minha,só minha.

Foi para a sala. Quis fumar, mas não pode fumar durante a gestação. Faz mal para o bebê e o pai não gosta. Sobre a mesa, um vaso com uma rosa fresca. Absorta, se esqueceu do mundo e passou a mão na barriga - já maldisse essa criança, jurando ser não-desejada, mas não foi bem assim.

Furou bem o dedo no espinho da rosa. Linda, vermelha, a rosa gostava de meu sangue, que escorria fino pela toalha da mesa suja de farelo. Denise podia ter evitado aquele espinho, mas fez questão de ferir-se. E gostou. Lhe agradava a dor, lhe agradava o sofrimento. Mas ao mesmo tempo estava cansada.

E sonhou que aquela rosa sobre a mesa, vinha do bicicleteiro.

Cedo ou tarde, ele vem me entregar outra.

Francisca olhou para o letreiro amarelo e vermelho atrás de si enquanto o ônibus não vinha. Deu uma corridinha até o caixa pra ver quanto custava as McFritas
Foi pra casa com fome mesmo, espancada pela realidade

E raios e chuva e a rua aquele inferno e a buzina sem cessar, irritando, latejando naquela manhã quase-oito e todo mundo atrasado pro trabalho e a porra do sinal só vermelho e o ônibus a feder Um ônibus acavalado sobre o outro. O ponto parado. Marli acima dessas questões.

Lendo firmemente. A xerox meio apagada, mas Marli era firme. Forçava os olhos para tentar compreender tão incompreensível teoria. Sentiu raiva de quem poderia ter escrito aquilo e mais ainda de quem iria entender. Sentiu-se burra, ignorante mesmo. Achava que se tivesse tido uma educação decente desde sempre, tivesse comido banana e peixe fartamente ao longo da vida pudesse estar lendo com as mãos nas costas.

E se tivesse tido peixe à mesa, era fato que não estaria ali a cheirar aquele cheiro na via. E a ouvir aquela agudez sem sentido conversa fiada aos celulares justificando atrasos e a catraca rolando e tem um de troco, não? e espirro e tosse só faltava soluço e Marli olhou pro lado curiando quem entrava no oins. Logo à sua frente, um pouco em diagonal sentou-se um homem regular nem branco nem preto cabelo bem cortado e uma maleta fingindo ser couro e Marli se perdeu na leitura. Em um segundo ou dois passaram fantasias em sua cabeça. Imaginou fazendo-se parte da vida daquele homem, com uma verruga discreta atrás da orelha. egoísta só pensava mesmo era em esquecer-se logo dele porque se anda de onibus é porque grande coisa não é.

marli lia pra tentar mudar de vida e reafirmava para si mesma, aliás, hábito de anos, que aquilo não é egoísmo mas eu to estudando pra que, então? pra casar com o primeiro zé-ruela que eu vejo no ônibus.

se se esforçasse pouco mais umidificava-se.

olhou pro lado no entanto distraindo-se um pouco com a miséria urbana ali no sinal e voltou-se para admirar o corpo alheio um pouco mais mas uma mulher sentou ao lado dele tapando-lhe a visão. marli brincou mais um pouco e viu-se num jantar com o cara num restaurante à meia-luz lhe passava pela cabeça que precisava era duma boa grana logo que o trabalho dela era uma merda, uma grande merda e queria sair daquilo e eu vou passar nesse concurso de abril. voltou-se a ler a coisa mais óbvia do mundo, longe de ser uma complicada teoria. mais banal que o conteúdo era ela não enteder aquilo e não sabia mas estava reprovada antes mesmo da prova. tentou se concentrar. como costume não conseguiu quando se voltou para o ladoviu o verruguinha indo embora. desceu no ponto da 20.

apesar de pegar aquele onibus e aquele cheiro e aquele barulho todo dia marli nunca mais o viu.

e nunca mais se lembrou

Diário de Bordo I

Estávamos indo em um ônibus com o ar-condicionado mais pra lá do que pra cá em direção a Maceió. Saíamos de Goiânia e estávamos no meio do caminho, em algum ponto da Bahia. O fato que fazia muito calor, naquele ônibus fechado, muita gente fedia, muita comida feita em casa fedia, e atrás do nosso banco, uma criança cagada.

- Ande, menina, tire a calcinha! Tire...anda, menina, tire a calcinha!

Essa era a mãe da menina, querendo que a criança tirasse a calcinha. Não me recordo bem, mas ela tinha, no máximo, quatro anos. Acho que menos. Como a menina cagada não obedecia a ordem de tirar a calcinha. A princípio, pensava: sabe lá Deus porque esse diabo de mulher não leva essa menina toda suja de merda para se limpar no banheiro do ônibus. Depois me dei conta, que o banheiro tava mais sujo de merda que a menina. Como não estava sendo bem-sucedida, a mãe resolver tentar entreter a menina:

- Olhe, menina: veja o bodinho. Brinque, brinque com um bodinho!

Não... não havia um bode de carne e osso no ônibus. Tratava-se de um bicho de pelúcia. Desses amorfos que se ganha em pecuária. Agora, da onde aquela mulher tirou que aquilo era um bode, não tenho a mínima idéia. Meu choque cultural não vai tão longe. Ah, antes que em esqueça, ela tinha um sotaque genérico nordestino. Desses que não são nem da Bahia, nem do Maranhão. Era como o das novelas. Novela já tava ficando aquela menina cagada. A mãe se irritava mais e mais:

- Ande, menina. Tire logo essa calcinha. Qué que eu te dê uma pisa?

A menina sublimava a existência da mãe. Ficava na dela, vendo a coitada com aquele bicho na mão, se irritando mais. Vale lembrar que, em cima das poltronas não havia apenas as duas e o bodinho. Espalhado por lá havia um monte de sacolas de plástico, umas bolsinhas com umas quinquilharias, aqueles pacotões de biscoito de farinha, vulgarmente conhecidos como peta (um horror) e outros artigos, como sapatos, chupetas, panos que serviam de babador, outros brinquedos da menina, um cobertorzinho... Parecia mais um achados e perdidos do que duas pessoas viajando. Com toda aquela bazófia, aquela gritaria de crianças ao redor, aquele cheiro debosta, a mãe se irritou de vez e deu uns tapas na menina... Arrancou a calcinha da filha e tacou o cobertorzinho na bunda dela para limpar os restos de cocô. Na hora de jogar aquela nojeira pela janela, se deu conta que ela não abria, por causa do ar condicionado. Foi lá pra frente e mandou o motorista abrir a porta e jogou as coisas fora.

Minutos depois, o ônibus parou em um posto. A menina, sem calcinha, foi banhada, limpa e provavelmente pegou alguma sarna num daqueles banheiros e, como não parava de chorar, apanhou mais. Depois se acalmou quando ganhou uma coxinha da mãe e voltaram para o ônibus.

Desceram numa cidadela de Aracaju. O ônibus partiu em direção a MAceió onde, como disse, descemos. E nós nunca mais as vimos na vida.

A melhor estréia desde Transamérica

 

Pequena Miss Sunshine - cinco estrelas

Por mais que eu e grande parte das pessoas se encantem no cinema com mega-produções, com efeitos, com piruetas escalafobéticas e outras maravilhas que impressionam, a verdade é uma só... é a simplicidade que marca.

Assistir a um filme de uma ponta a outra com um sorrisinho no rosto, se apaixonar por simplesmente todos os personagens e dormir pensando na delicadeza com que a relação familiar, seja no seu tratamento com o suicídio ou com o apoio à irmã mais nova, é tratada, foi definitivamente uma das melhores coisas que me aconteceu esse ano.

 

chega logo, terceira temporada!

 

Miranda Bailey, from Grey's Anatomy

We're all a part of a cosmic joke, O'Malley! Now, leave me alone!

Cineasta

 

joão vitor campos tomando bronca do diretor. 

Já participei de alguns sets de cinema e conheço mais umas tantas pessoas que participaram de outros tantos sets. Depois de colher alguns depoimentos, ficou comprovado que o set de "Do andar de baixo", curta-metragem de 13min em 16mm foi eleito o set mais cabuloso da história do cinema trash-experimental-exercício de faculdade. Dentre a equipe, contam-se nos dedos (e da mão do Lula) as pessoas que não passaram mal ou choraram ou espernearam ou desmaiaram ou pegaram uma insolação ou tiveram diarréia ou foram parar no veterinário (caso da cadelinha Bibi, de posse da assistente de direção, Marina Watanabe). Enfim, foi um set com muitas emoções.

Depois de tantos dramas, um ano depois do novembro maldito (se bem que novembros nunca são malditos, visto que dia 4 é meu aniversário) o filme finalmente vai estrear, e em grande estilo: será na mostra competitiva em 16mm e na Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E, em seguida, vai rodar o Brasil.

"Do Andar de Baixo" - 16mm - 13'

Direção e Roteiro: Luisa Campos e Otavio Chamorro

Com: João Vitor Campos/Bárbara Macri/Marisa de Castro/Maria Garcia/Roberto De Martin

Atriz Convidada: Cadelinha Bibi

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